A nomeação de Nuno Filipe Cação Marques como chefe do Gabinete de Apoio à Presidência da Câmara Municipal de Setúbal, assinada por Maria das Dores Meira no dia 4 de novembro, está a levantar forte polémica e a reacender suspeitas sobre a coerência ética e política da recém-eleita presidente.
Marques — que até há poucas semanas se encontrava de baixa médica por motivos psiquiátricos — é o mesmo funcionário que, durante o período da sua alegada incapacidade laboral, foi visto em plena atividade política como um dos rostos mais presentes e influentes da campanha eleitoral de Dores Meira.
Segundo apurou o Setúbal Notícias, o agora chefe de gabinete é também fundador da associação Setúbal Sempre – Associação Cívica, criada a 27 de março de 2024, em conjunto com Paulo Manuel Maia da Silva, poucos meses depois de se ter afastado das funções na autarquia alegando motivos psicológicos. Esta associação viria, mais tarde, a servir de base e estrutura organizativa ao movimento independente Setúbal de Volta, liderado por Maria das Dores Meira.
O envolvimento de Nuno Marques com o movimento independente também foi destacado por outros órgãos de comunicação. Facto referido pelo jornal Setúbal Mais, que recordou o seu papel ativo: “Recorde-se que Nuno Marques foi um dos elementos mais activos do movimento independente ‘Dores Meira – Setúbal de Volta’, que resultou na vitória nas eleições autárquicas de 12 de outubro.”
Durante a campanha, Nuno Marques foi apontado por diversas fontes como “diretor de campanha” da candidata independente. A sua presença era recorrente em ações públicas, eventos de rua e reuniões estratégicas. Tudo isto enquanto permanecia formalmente de baixa médica psiquiátrica — uma situação que levanta sérias questões sobre ética, legalidade e transparência no exercício de funções públicas.
Em maio deste ano, o Setúbal Notícias já havia revelado esta contradição: um funcionário municipal afastado por incapacidade psicológica, mas em plena atividade política, inclusive durante o horário de expediente. Confrontado à época, Nuno Marques negou exercer funções de direção, alegando apenas prestar “apoio pontual” à candidata. Dores Meira e a Câmara Municipal de Setúbal optaram, então, pelo silêncio.
Agora, a nomeação de Nuno Marques para chefe do Gabinete de Apoio à Presidência surge como recompensa imediata após a vitória eleitoral de Dores Meira, reacendendo o debate sobre a fronteira entre o que é legal e o que é moralmente admissível no serviço público.
O caso de Nuno Marques soma-se a uma sequência de episódios que têm marcado o início conturbado do novo mandato de Maria das Dores Meira. De lembrar as várias suspeitas que pairaram sobre mandatos anteriores da autarca, as polémicas que envolveram a campanha eleitoral e, agora, este novo episódio que volta a colocar o nome de Nuno Marques no centro do debate público entre os munícipes de Setúbal.
Entre o silêncio da autarquia e o desconforto nos corredores municipais, cresce a sensação de que a confiança pública pode estar, mais uma vez, a ser posta à prova logo nos primeiros dias da nova presidência.













