Nomeação desencadeia crise interna e alimenta acusações de favorecimento político dentro do Movimento
José Manuel Canavarro, militante histórico do PSD, ex-secretário de Estado e número dois da lista de Maria das Dores Meira à Assembleia Municipal, deverá ser o próximo presidente da Escola Profissional de Setúbal. A escolha, apurou o Setúbal Notícias, foi decidida diretamente pela presidente da Câmara Municipal e já está a gerar tensão e forte contestação interna.
Jorge Bico era o nome inicial — mas foi afastado
Inicialmente, o professor Jorge Bico foi apontado como o principal candidato à presidência da Escola Profissional. No entanto, o seu perfil “pouco consensual” e considerado “conflituoso” levou a que fosse preterido. A escolha recaiu em Canavarro, que, apesar de ter enfrentado um processo por corrupção, acabou por ser considerado o nome “mais conveniente” para o círculo próximo de Dores Meira.
“Era para ser o Jorge Bico. Toda a gente sabia disso. Mas foi afastado para entrar o Canavarro”, revelou ao Setúbal Notícias um elemento do Movimento.
Escolha de Canavarro vista como troca de favores com o PSD
A decisão de nomear Canavarro, figura de peso dentro do PSD, reacendeu suspeitas e acusações de favorecimento político. Fontes do Movimento afirmam que esta nomeação está a ser interpretada como contrapartida pelo apoio do PSD à candidatura de Dores Meira.
“Há quem veja isto como um pagamento de favores. E há gente muito revoltada com a forma como tudo está a ser conduzido”, confidenciou um membro da cúpula do Movimento, que ocupa atualmente funções na Câmara Municipal de Setúbal e é muito próximo de Dores Meira.
Para tentar conter o descontentamento, Dores Meira terá optado por nomear Maria do Carmo Tiago para a vice-presidência do município, ultrapassando o número dois da lista, Paulo Maia. A decisão está a causar enorme desconforto interno, sobretudo porque Maia, fundador do Movimento e figura de ligação ao PSD nacional, esperava assumir esse cargo.
Paulo Maia sente-se politicamente fragilizado
Segundo várias fontes, Paulo Maia está “indignado” com a decisão que o afastou da vice-presidência, sobretudo por ter sido ultrapassado por alguém que ocupava o terceiro lugar da lista. A situação fragiliza a sua posição dentro do Movimento e amplifica tensões entre independentes e os setores alinhados com o PSD.
A mudança ganha ainda mais relevância devido ao facto de que, num eventual cenário de perda de mandato por parte de Dores Meira, Paulo Maia seria o substituto natural na presidência da Câmara. Com esta reconfiguração interna, vê o seu peso político e a sua influência profundamente diminuídos.
O passado judicial de Canavarro volta ao centro do debate
José Manuel Canavarro foi acusado pelo Ministério Público no âmbito do caso dos colégios do grupo GPS, processo que envolve crimes de corrupção ativa e passiva, peculato, falsificação agravada, burla qualificada e abuso de confiança. A acusação refere que colégios do grupo cobraram ao Estado “horas fictícias” de trabalho docente, lesando o erário público.
O ex-secretário de Estado negou todas as acusações. No entanto, o Tribunal de Contas (Processo n.º 36/2005) e o Ministério Público, na acusação formal, entenderam existir matéria que justificava a continuação do processo e a análise por parte da justiça.
Também Dores Meira está sob investigação
Importa recordar que a própria presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira, está sob suspeita — num processo distinto — pelos crimes de peculato, corrupção, prevaricação, tráfico de influência e abuso de poder.
A escolha de um dirigente acusado num processo de grande relevância nacional para liderar a Escola Profissional, conjugada com o seu próprio quadro judicial, amplia o ambiente de desconfiança.
Movimento dividido e críticas de trabalhadores agravam cenário
Com o afastamento de Jorge Bico, a ascensão de Maria do Carmo Tiago e a nomeação iminente de José Manuel Canavarro, cresce a perceção de que o Movimento Setúbal de Volta enfrenta uma profunda divisão interna — possivelmente a maior desde a sua fundação.
Paralelamente, começam também a surgir críticas entre trabalhadores da autarquia, que classificam o atual clima interno como marcado por uma postura “autoritária e vingativa” da presidente, alegadamente dirigida a funcionários que terão apoiado outras forças políticas nas últimas eleições.












