Comunicação social em Setúbal alvo de pressão dos independentes
Uma situação envolvendo a deputada eleita para a Assembleia de Freguesia da União das Freguesias de Setúbal, Carla Tavares, e o jornalista Igor Pereira, diretor e fundador do Setúbal Notícias, gerou tensão ao final da primeira sessão da nova Assembleia Municipal de Setúbal, realizada nos paços do concelho de Setúbal, na Praça do Bocage.
De acordo com o relato de várias testemunhas e do jornalista, o episódio ocorreu depois do encerramento da sessão, quando Carla Tavares o abordou à saída da tomada de posse, questionando:
“O senhor é o Igor Pereira, do jornal Setúbal Notícias?”
Segundo Igor Pereira, a deputada terá passado a referir-se de forma exaltada a uma reportagem publicada anteriormente pelo jornal, em que o seu nome é citado. Nessa matéria, o Setúbal Notícias abordava declarações de membros do Movimento Independente Setúbal de Volta, liderado por Maria das Dores Meira, que procuravam distanciar-se dos partidos PSD-CDS, apesar do apoio que o movimento recebeu, ao nível nacional destes partidos para a candidatura às listas independentes de Dores Meira.
A notícia em causa incluía, na íntegra, comentários públicos feitos por Carla Tavares no Facebook, apresentados tal como publicados na rede social e acompanhados de capturas de ecrã (print screens), segundo o jornal, o que impossibilitaria qualquer manipulação do conteúdo. Os comentários incluíam o seguinte texto:
“Carlos Manuel Cardoso, obrigada pela tua análise.
O PSD nunca poderá dizer que ganhou a câmara, porque quem vai ganhar é um movimento independente de pessoas com várias ideologias políticas democráticas. A oposição quer fazer acreditar que somos PSD para enganar as pessoas. Sabes como sou, não gosto de jogo sujo. Somos INDEPENDENTES… os problemas entre o psd central e local é deles, nós estamos fora. Bom dia!!!”
Em outra publicação, na reação a um editorial do jornal O Setubalense, Carla Tavares comentou:
“Sr. Rito, quem lê a sua crónica até pode acreditar no que escreve, mas só quem não vive aqui é que cai nessa ilusão.
A realidade é bem diferente. O jornal foi claramente tendencioso, com títulos de notícias manipuladores e uma cobertura que favoreceu descaradamente o ex-presidente André Martins.
Isto não é jornalismo, é propaganda disfarçada.
Um jornal sério tem o dever de ser isento e de informar com verdade. O que vimos foi o oposto: um alinhamento com interesses políticos e uma falta gritante de ética profissional.
Pense bem, Sr. Rito. Ser jornalista não é só assinar uma crónica, é ter consciência, responsabilidade e respeito pelos factos.”
Ainda segundo o relato do jornalista, Carla Tavares terá dito à saída da sessão frases como:
“O senhor nunca mais publique notícias sobre mim sem me consultar”
e
“O senhor nunca mais publique mentiras sobre mim, ou então vai ver.”
Igor Pereira afirma ter respondido que consultaria sempre que considerasse pertinente, acrescentando:
“Peço desculpa, mas eu publicarei conforme a relevância jornalística. Quando não achar necessário, não o farei.”
O jornalista diz que, nesse momento, a deputada da freguesia terá elevado o tom de voz e feito gestos físicos, apontando-lhe o dedo ao rosto e tocando-lhe no peito por três vezes, num gesto que Igor Pereira interpretou como intimidatório e desrespeitoso. Testemunhas no local afirmam ter observado o momento de tensão no corredor principal da autarquia.
O Setúbal Notícias confirma que foi registada uma ocorrência junto da PSP e que Igor Pereira pretende acompanhar o caso até ao fim dos trâmites legais.
No entanto, o jornalista salienta que considera retirar a queixa apresentada contra Carla Tavares, caso a deputada se retrate publicamente nas suas redes sociais e durante a próxima reunião da Assembleia de Freguesia, marcada para a próxima segunda-feira, data em que a autarca tomará posse como segunda eleita. O Movimento Independente liderado por Maria das Dores Meira ficou com o segundo lugar nas eleições, tendo sido derrotado pelo Partido Socialista para esta freguesia.
O jornalista, que é brasileiro, casado e pai de dois filhos, declarou sentir-se intimidado e discriminado, suspeitando que a atitude possa ter sido encorajada pelo facto de ser estrangeiro, na suposição de que desconheceria a legislação portuguesa.
Factos como os aqui relatados levantam, segundo o jornal e o próprio jornalista, suspeitas sobre uma postura intimidatória e de ataque frequente aos órgãos de comunicação social locais, condutas que podem colocar em risco a democracia e o estado de direito democrático.
Em nota oficial, o Setúbal Notícias repudia veementemente qualquer tentativa de ameaça, coação ou intimidação dirigida a jornalistas no exercício da sua função, lembrando que em Portugal vigora o Estado de Direito Democrático, regido pela Constituição da República Portuguesa (artigos 37.º e 38.º) e pela Lei de Imprensa, que garantem a liberdade de expressão e o direito à informação.
“O jornal reafirma o seu compromisso com a verdade, o pluralismo e a ética profissional. A liberdade de imprensa é um direito fundamental que sustenta a democracia portuguesa e jamais pode ser colocado em causa”, refere o comunicado.
Até ao momento, Carla Tavares não reagiu publicamente às suspeitas levantadas sobre o episódio.













