Em 25 de Abril de 1974, o som das senhas radiofónicas e o eco da canção “Grândola, Vila Morena” abriram as portas de uma nova era. O povo português recuperava o direito de falar, de pensar e de informar. Quase meio século depois, a liberdade de imprensa continua a ser o mais sensível termómetro da saúde democrática.
Os factos recentes que envolveram a deputada Carla Tavares e o jornalista Igor Pereira, ocorridos nas instalações da Câmara Municipal de Setúbal, ultrapassam o episódio pessoal e adentram o terreno das instituições e dos valores. Quando um representante eleito procura intimidar ou descredibilizar um jornalista, o que está em causa não é apenas um desacordo: é o próprio respeito pelos limites do poder e pela função social do jornalismo.
A liberdade de imprensa existe para questionar, não para agradar; para fiscalizar, não para servir. O jornalista não deve obediência a partidos nem a movimentos — deve-a apenas à verdade, aos factos e à sociedade que representa.
A Constituição da República Portuguesa é clara: o Estado existe para garantir as liberdades, não para as restringir. O artigo 38.º protege o jornalista da censura, da intimidação e da perseguição. E esta proteção não é um capricho — é um dever da democracia.
Quando uma figura pública tenta condicionar o trabalho da imprensa, a questão deixa de ser pessoal e torna-se institucional. O que se ameaça, nesses casos, é o direito coletivo de toda a população a ser informada com independência e sem medo.
É fundamental recordar que a imprensa livre é o espelho do 25 de Abril. Cada jornalista intimidado representa um passo atrás na história. Cada tentativa de silenciar uma voz independente é um ataque simbólico à própria revolução que devolveu a liberdade ao país.
O Setúbal Notícias reafirma o seu compromisso com um jornalismo livre, ético e plural, guiado pelo rigor, pela responsabilidade e pelo dever de informar, sem ceder a pressões políticas ou pessoais.
A democracia não se preserva em silêncio — preserva-se com palavras, com coragem e com verdade.
A liberdade de imprensa não se discute, defende-se.
E enquanto o 25 de Abril viver na memória e no espírito de Portugal, nenhuma tentativa de intimidação conseguirá calar o jornalismo livre.
Editorial – Setúbal Notícias, 31 de outubro de 2025












